Filme: “A que horas ela volta?”, comentário sociológico

Tempo de leitura: 5 minutos

“A que horas ela volta?”

Acabo de sair do cinema para assistir ao filme “A que horas ela volta” e pensei: “Acho que nós, que gostamos de sociologia, temos de tratar deste filme”. Porque não é só um filme “legal”, tem uma visão inovadora. “A que horas ela volta” é um filme brasileiro de 2015 que teve muito sucesso no Brasil. Fala do confronto de dois mundos brasileiros.

Se você não assistiu a este filme, vou resumir rapidamente a historia. Val, de Pernambuco, é empregada doméstica em uma família de classe alta em São Paulo. Ela migrou de cidade a fim de poder trabalhar e ganhar algum dinheiro. Mas deixou sua filha em Pernambuco. Porém, treze anos depois, a filha chamou-lhe para falar que iria para São Paulo a fim de tentar a sorte no vestibular e acaba por adentrar a esta casa onde a mãe trabalha como empregada doméstica. Assim, dessa maneira, a menina passa a descobrir o trabalho de sua mãe.

Vamos nos perguntar: Por que este filme é interessante sociologicamente?

Uma realidade social presente na sociedade brasileira

Primeiro, porque trata de uma realidade social ainda presente na sociedade brasileira. É importante precisar que, hoje em dia, grande parte dos indivíduos de menor renda em São Paulo são nordestinos, ou de origem afrodescentente. Por exemplo, no meu país, a França, nunca tinha visto este tipo de trabalho. Na França, existem indivíduos que são contratados para fazer a limpeza. Este serviço é bem mais caro do que aqui. Nunca vi pessoas lá para servir o café da manhã, para fazer o serviço durante o almoço, alguém que está sempre disposto a servir a ponto de dormir na casa da empregadora!

No último artigo, eu falei de dois mundos, o mundo da favela e o mundo fora dela. Aqui, podemos fazer uma comparação. Geralmente, a maioria das empregadas domésticas são mulheres, pretas ou morenas, com salário baixo e morando numa favela.  Do outro lado, existem os indivíduos que têm dinheiro para poder oferecer este serviço. Geralmente, este lado, corresponde aos indivíduos com mais dinheiro, brancos e morando fora da favela.

Dominado, dominante?

empregada domesticaComo você viu, ou não, no filme, a empregada é considerada quase como a mãe do menino porque ela influencia, também, na sua educação. A relação parece muito forte entre os dois. Às vezes, eles dormem juntos, compartilham as dúvidas, os problemas, etc. Porém, por exemplo, o menino não sabe quase nada da vida dela, enquanto a empregada conhece todos os detalhes da vida dele. Então, você acha que podemos falar de “dominante” e de “dominado”, ou não? De um lado, a empregada tem o seu próprio espaço na casa. A família fala que ela é considerada como um membro da família. Porém, do outro, a empregada faz a maior parte do que a família pede. Nesta relação, existe um câmbio entre serviço e salário.

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Nesta relação de trabalho, cada grupo têm normas próprias a respeitar. Existem fatos que são considerados como normais para um grupo, porém, não é para o outro.

Exemplos de normas sociais próprias a cada grupo

Do lado da empregada, ela não pode dormir no quarto de hóspedes. Ela não pode comer na mesma mesa que a família. Não pode comer a mesma comida. Não pode tomar banho na piscina. Quando a família pede uma coisa, deve sempre responder “estou indo” e não “não quero” ou “não posso”. Você tem outros exemplos? Pode deixar um comentário abaixo.

Do outro lado, por exemplo, a família, pode pedir “Um guaraná”, sem falar “por favor” e sem a obrigação de falar “obrigado”. A família tem um relativo poder sobre a empregada.

Por exemplo, em um momento, a empregada fala para a sua filha: a família irá te perguntar se você quer determinada comida. Porém, saiba que os membros desta família realizam esta pergunta apenas por educação, porque sabem que você vai responder “não quero, obrigada”. É um exemplo para mostrar que cada grupo integrou as normas sociais. A família tem de propor. A empregada tem de refutar.

A fronteira entre os dois mundos

Também, este filme é interessante sociologicamente porque podemos ver que a filha não conhece as normas sociais próprias a estes dois grupos sociais. Ela não conhece os limites e as fronteiras visíveis e invisíveis entre estes dois grupos. A menina rompe a fronteira invisível que existe entre estes dois mundos porque ela não integrou estas normas sociais. Ela leva a questão: esta fronteira é realmente necessária?

Quando a menina não respeita as normas sociais próprias ao grupo de sua mãe, recebe sanções de graus diferentes. Por exemplo, quando a filha brinca na piscina, recebe várias sanções. Primeiro, sua mãe briga afirmando que ela não pode fazer isso. A mãe da família fica brava. Porém, o filho da família gosta de poder brincar com a menina. Então, várias relações de poder entram em jogo e isso acaba gerando inúmeras consequências. Cada um atua de maneira diferente.

Preconceitos

Outro elemento sociológico. A família demontra preconceitos relativos à filha da empregada. Eles pensaam que esta menina, com uma mãe empregada, preta e não rica, não seria capaz de conseguir aprovação em uma grande universidade. Porém, falando com ela, a família entende que uma filha de empregada pode ser, sim, inteligente e culta. A mãe dela fala: o mundo está mudando.

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Terminarei assim, falando: o mundo esta mudando. E, vocês mesmos, podem mudar este mundo. Não quero fazer propaganda, mas, para mim, vale a pena assistir a este filme e refletir profundamente sobre esta questão. Não vão se arrepender!

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Sobre Léa Mougeolle

Me chamo Léa Mougeolle e sou uma socióloga francesa que adora escrever e estudar sobre o Brasil. Me graduei na universidade de Bordeaux e finalizei meu mestrado em Paris, na universidade La Sorbonne Nouvelle. É um prazer poder compartilhar conhecimento com você!